quinta-feira, 26 de abril de 2012

Memória Litúrgia de Santa Beatriz da Silva e Meneses
passará a celebrar-se no dia 17 de Agosto de cada ano
Contrariando a indicação do papa Paulo VI, a quando da Canonização (3.Outubro.1976), o calendário Português celebra a memória litúrgica da fundadora da Ordem da Imaculada Conceição a 1 de Setembro.
Com vista a uniformizar a data com a Igreja Universal, que celebra a sua memória a 17 de Agosto, com o grande empenho do Arcebispo de Évora e da Comunidade Monástica das Concepcionistas de Campo Maior, a Conferência Episcopal Portuguesa, na Assembleia Plenária que decorreu entre 7 e 10 de Novembro de 2011: "...concordou que se proporá à Santa Sé a mudança da celebração litúrgica de Santa Beatriz da Silva, passando do dia 1 de setembro para 17 de agosto, conforme consta na Bula de Canonização da fundadora da Ordem da Imaculada Conceição (Concepcionistas)".
Por decreto da «Congregatio de Cultu Divino et Disciplina Sacramentorum», com data de 22 de Fevereiro de 2012chegou recentemente ao Presidente de Conferência Episcopal Portuguesa, a autorização da transferência da memória liturgica de Santa Beatriz da Silva e Meneses do dia 1 de Setembro para o dia 17 de Agosto, no Calendário Próprio de Portugal. Pelo que, a Memória Litúrgia de Santa Beatriz da Silva e Meneses passará a celebrar-se no dia 17 de Agosto de cada ano.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Mensagem do Santo Padre para o
49º Dia Mundial de Oração pelas Vocações

Amados irmãos e irmãs!
O XLIX Dia Mundial de Oração pelas Vocações, que será celebrado no IV domingo de Páscoa – 29 de Abril de 2012 –, convida-nos a reflectir sobre o tema «As vocações, dom do amor de Deus».
A fonte de todo o dom perfeito é Deus, e Deus é Amor – Deus caritas est –; «quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele» (1 Jo 4, 16). A Sagrada Escritura narra a história deste vínculo primordial de Deus com a humanidade, que antecede a própria criação. Ao escrever aos cristãos da cidade de Éfeso, São Paulo eleva um hino de gratidão e louvor ao Pai pela infinita benevolência com que predispõe, ao longo dos séculos, o cumprimento do seu desígnio universal de salvação, que é um desígnio de amor. No Filho Jesus, Ele «escolheu-nos – afirma o Apóstolo – antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em caridade na sua presença» (Ef 1, 4). Fomos amados por Deus, ainda «antes» de começarmos a existir! Movido exclusivamente pelo seu amor incondicional, «criou-nos do nada» (cf. 2 Mac 7, 28) para nos conduzir à plena comunhão consigo.
À vista da obra realizada por Deus na sua providência, o salmista exclama maravilhado: «Quando contemplo os céus, obra das vossas mãos, a Lua e as estrelas que Vós criastes, que é o homem para Vos lembrardes dele, o filho do homem para com ele Vos preocupardes?» (Sal 8, 4-5). Assim, a verdade profunda da nossa existência está contida neste mistério admirável: cada criatura, e particularmente cada pessoa humana, é fruto de um pensamento e de um acto de amor de Deus, amor imenso, fiel e eterno (cf. Jer 31, 3). É a descoberta deste facto que muda, verdadeira e profundamente, a nossa vida. Numa conhecida página das Confissões, Santo Agostinho exprime, com grande intensidade, a sua descoberta de Deus, beleza suprema e supremo amor, um Deus que sempre estivera com ele e ao qual, finalmente, abria a mente e o coração para ser transformado: «Tarde Vos amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Vós estáveis dentro de mim, mas eu estava fora, e fora de mim Vos procurava; com o meu espírito deformado, precipitava-me sobre as coisas formosas que criastes. Estáveis comigo e eu não estava convosco. Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria, se não existisse em Vós. Chamastes-me, clamastes e rompestes a minha surdez. Brilhastes, resplandecestes e dissipastes a minha cegueira. Exalastes sobre mim o vosso perfume: aspirei-o profundamente, e agora suspiro por Vós. Saboreei-Vos e agora tenho fome e sede de Vós. Tocastes-me e agora desejo ardentemente a vossa paz» (Confissões, X, 27-38). O santo de Hipona procura, através destas imagens, descrever o mistério inefável do encontro com Deus, com o seu amor que transforma a existência inteira.
Trata-se de um amor sem reservas que nos precede, sustenta e chama ao longo do caminho da vida e que tem a sua raiz na gratuidade absoluta de Deus. O meu antecessor, o Beato João Paulo II, afirmava – referindo-se ao ministério sacerdotal – que cada «gesto ministerial, enquanto leva a amar e a servir a Igreja, impele a amadurecer cada vez mais no amor e no serviço a Jesus Cristo Cabeça, Pastor e Esposo da Igreja, um amor que se configura sempre como resposta ao amor prévio, livre e gratuito de Deus em Cristo» (Exort. ap. Pastores dabo vobis, 25). De facto, cada vocação específica nasce da iniciativa de Deus, é dom do amor de Deus! É Ele que realiza o «primeiro passo», e não o faz por uma particular bondade que teria vislumbrado em nós, mas em virtude da presença do seu próprio amor «derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo» (Rm 5, 5).
Em todo o tempo, na origem do chamamento divino está a iniciativa do amor infinito de Deus, que se manifesta plenamente em Jesus Cristo. «Com efeito – como escrevi na minha primeira Encíclica, Deus caritas est – existe uma múltipla visibilidade de Deus. Na história de amor que a Bíblia nos narra, Ele vem ao nosso encontro, procura conquistar-nos – até à Última Ceia, até ao Coração trespassado na cruz, até às aparições do Ressuscitado e às grandes obras pelas quais Ele, através da acção dos Apóstolos, guiou o caminho da Igreja nascente. Também na sucessiva história da Igreja, o Senhor não esteve ausente: incessantemente vem ao nosso encontro, através de pessoas nas quais Ele Se revela; através da sua Palavra, nos Sacramentos, especialmente na Eucaristia» (n.º 17).
O amor de Deus permanece para sempre; é fiel a si mesmo, à «promessa que jurou manter por mil gerações» (Sal 105, 8). Por isso é preciso anunciar de novo, especialmente às novas gerações, a beleza persuasiva deste amor divino, que precede e acompanha: este amor é a mola secreta, a causa que não falha, mesmo nas circunstâncias mais difíceis.
Amados irmãos e irmãs, é a este amor que devemos abrir a nossa vida; cada dia, Jesus Cristo chama-nos à perfeição do amor do Pai (cf. Mt 5, 48). Na realidade, a medida alta da vida cristã consiste em amar «como» Deus; trata-se de um amor que, no dom total de si, se manifesta fiel e fecundo. À prioresa do mosteiro de Segóvia, que fizera saber a São João da Cruz a pena que sentia pela dramática situação de suspensão em que ele então se encontrava, este santo responde convidando-a a agir como Deus: «A única coisa que deve pensar é que tudo é predisposto por Deus; e onde não há amor, semeie amor e recolherá amor» (Epistolário, 26).
Neste terreno de um coração em oblação, na abertura ao amor de Deus e como fruto deste amor, nascem e crescem todas as vocações. E é bebendo nesta fonte durante a oração, através duma familiaridade assídua com a Palavra e os Sacramentos, nomeadamente a Eucaristia, que é possível viver o amor ao próximo, em cujo rosto se aprende a vislumbrar o de Cristo Senhor (cf. Mt 25, 31-46). Para exprimir a ligação indivisível entre estes «dois amores» – o amor a Deus e o amor ao próximo – que brotam da mesma fonte divina e para ela se orientam, o Papa São Gregório Magno usa o exemplo da plantinha: «No terreno do nosso coração, [Deus] plantou primeiro a raiz do amor a Ele e depois, como ramagem, desenvolveu-se o amor fraterno» (Moralia in Job, VII, 24, 28: PL 75, 780D).
Estas duas expressões do único amor divino devem ser vividas, com particular vigor e pureza de coração, por aqueles que decidiram empreender um caminho de discernimento vocacional em ordem ao ministério sacerdotal e à vida consagrada; aquelas constituem o seu elemento qualificante. De facto, o amor a Deus, do qual os presbíteros e os religiosos se tornam imagens visíveis – embora sempre imperfeitas –, é a causa da resposta à vocação de especial consagração ao Senhor através da ordenação presbiteral ou da profissão dos conselhos evangélicos. O vigor da resposta de São Pedro ao divino Mestre – «Tu sabes que Te amo» (Jo 21, 15) – é o segredo duma existência doada e vivida em plenitude e, por isso, repleta de profunda alegria.
A outra expressão concreta do amor – o amor ao próximo, sobretudo às pessoas mais necessitadas e atribuladas – é o impulso decisivo que faz do sacerdote e da pessoa consagrada um gerador de comunhão entre as pessoas e um semeador de esperança. A relação dos consagrados, especialmente do sacerdote, com a comunidade cristã é vital e torna-se parte fundamental também do seu horizonte afectivo. A este propósito, o Santo Cura d’Ars gostava de repetir: «O padre não é padre para si mesmo; é-o para vós» [Le curé d’Ars. Sa pensée – Son cœur ( ed. Foi Vivante - 1966), p. 100].
Venerados Irmãos no episcopado, amados presbíteros, diáconos, consagrados e consagradas, catequistas, agentes pastorais e todos vós que estais empenhados no campo da educação das novas gerações, exorto-vos, com viva solicitude, a uma escuta atenta de quantos, no âmbito das comunidades paroquiais, associações e movimentos, sentem manifestar-se os sinais duma vocação para o sacerdócio ou para uma especial consagração. É importante que se criem, na Igreja, as condições favoráveis para poderem desabrochar muitos «sins», respostas generosas ao amoroso chamamento de Deus.
É tarefa da pastoral vocacional oferecer os pontos de orientação para um percurso frutuoso. Elemento central há-de ser o amor à Palavra de Deus, cultivando uma familiaridade crescente com a Sagrada Escritura e uma oração pessoal e comunitária devota e constante, para ser capaz de escutar o chamamento divino no meio de tantas vozes que inundam a vida diária. Mas o «centro vital» de todo o caminho vocacional seja sobretudo a Eucaristia: é aqui no sacrifício de Cristo, expressão perfeita de amor, que o amor de Deus nos toca; e é aqui que aprendemos incessantemente a viver a «medida alta» do amor de Deus. Palavra, oração e Eucaristia constituem o tesouro precioso para se compreender a beleza duma vida totalmente gasta pelo Reino.
Desejo que as Igrejas locais, nas suas várias componentes, se tornem «lugar» de vigilante discernimento e de verificação vocacional profunda, oferecendo aos jovens e às jovens um acompanhamento espiritual sábio e vigoroso. Deste modo, a própria comunidade cristã torna-se manifestação do amor de Deus, que guarda em si mesma cada vocação. Tal dinâmica, que corresponde às exigências do mandamento novo de Jesus, pode encontrar uma expressiva e singular realização nas famílias cristãs, cujo amor é expressão do amor de Cristo, que Se entregou a Si mesmo pela sua Igreja (cf. Ef 5, 25). Nas famílias, «comunidades de vida e de amor» (Gaudium et spes, 48), as novas gerações podem fazer uma experiência maravilhosa do amor de oblação. De facto, as famílias são não apenas o lugar privilegiado da formação humana e cristã, mas podem constituir também «o primeiro e o melhor seminário da vocação à vida consagrada pelo Reino de Deus» (Exort. ap. Familiaris consortio, 53), fazendo descobrir, mesmo no âmbito da família, a beleza e a importância do sacerdócio e da vida consagrada. Que os Pastores e todos os fiéis leigos colaborem entre si para que, na Igreja, se multipliquem estas «casas e escolas de comunhão» a exemplo da Sagrada Família de Nazaré, reflexo harmonioso na terra da vida da Santíssima Trindade.
Com estes votos, concedo de todo o coração a Bênção Apostólica a vós, veneráveis Irmãos no episcopado, aos sacerdotes, aos diáconos, aos religiosos, às religiosas e a todos os fiéis leigos, especialmente aos jovens e às jovens que, de coração dócil, se põem à escuta da voz de Deus, prontos a acolhê-la com uma adesão generosa e fiel.
Vaticano, 18 de Outubro de 2011.
BENEDICTUS PP XVI

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Liturgia das Horas (1)
“A tradição monástica sabe do tempo certo, o tempo da misericórdia, o tempo agradável e tão desejado, em que Deus produz em nós o seu trabalho. Deste modo, os monges interrompem sempre o seu trabalho diário à hora das orações, a que chamam Horas. As Horas remetem para a hora em que Deus glorificou o seu Filho e em que também permite que o seu esplendor brilhe para os monges. A liturgia é o lugar em que o céu e a terra se tocam, em que o céu resplandece sobre os que rezam. […] as Horas são «anjos que encontramos em determinados momentos, no decurso do dia». Os anjos, […], são mensageiros de Deus, que vêm de uma outra dimensão e nos recordam que cada hora tem a sua própria qualidade, o seu próprio mistério. Tal como devemos escutar os anjos, o que eles têm para nos dizer, na qualidade de mensageiros de Deus, também devemos atentar nas Horas. […] O tempo de oração recorda-nos que cada «hora» é uma «hora-amada», um tempo amado, um tempo em que devemos receber o amor de Deus nas suas diferentes formas.”
Anselm Grun,
"Ao ritmo do tempo dos monges - sobre a relação com um bem valioso",
Paulinas Editora, Prior Velho, 2006,
pgs 23 e 24.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Oração para pedir a Chuva
Deus, nosso Pai, Senhor do Céu e da Terra (Mt 11, 21)
Vós sois para nós existência, energia e vida (Act 17, 2).
Criastes o homem à Vossa imagem
(Gn 1, 27-28)
a fim de que com o seu trabalho ele faça frutificar
as riquezas da terra
colaborando assim na Vossa criação.
Temos consciência da nossa miséria e fraqueza:
nada podemos fazer sem Vós (Jo 15, 5).
Tu, Pai bondoso, que sobre todos fazes brilhar o sol (Mt 5, 45)
e fazes cair a chuva,
tem compaixão de todos os que sofrem duramente
pela seca que nos ameaça nestes dias.
Escuta com bondade as orações que Vos são dirigidas
com confiança pela Vossa Igreja (Lc 4, 25),
como satisfizestes com as súplicas do profeta Elias (1Rs 17, 1)
que intercedia em favor do Vosso povo (Tg 5, 17-18).
Fazei cair do céu sobre a terra árida
a chuva desejada
a fim de que renasçam os frutos (Tg 5, 18)
e sejam salvos homens e animais (Sl 35, 7).
Que a chuva seja para nós o sinal
da Vossa graça e da Vossa bênção:
assim, reconfortados pela Vossa misericórdia (Is 55, 10-11),
dar-Vos-emos graças por todos os dons da terra e do céu,
com os quais o Vosso Espírito satisfaz a nossa sede (Jo 7, 37-38).
Por Jesus Cristo, Vosso Filho, que nos revelou o Vosso amor,
fonte de água viva, que brota para a vida eterna (Jo 4, 14).
Ámen.
Oração do Papa Paulo VI, composta em 1976,
quando se abateu sobre o continente europeu um período de seca prolongada.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Mosteiro de Santa Maria do Socorro
de Sevilha
Fundado em 1522, por Juana Ayala em casas já existentes perto da Igreja de São Marcos.


sexta-feira, 9 de março de 2012

“Um mosteiro contemplativo constitui também um dom para a Igreja local a que pertence. Representando o seu rosto orante, torna mais plena e significativa a sua presença de Igreja. Uma comunidade monástica pode ser comparada com Moisés, que, na oração, decidiu a sorte das batalhas de Israel (cf. Ex 17, 11) e com a sentinela que vigia de noite à espera da aurora (cf. Is 21, 6). O mosteiro representa a própria intimidade de uma Igreja, o coração onde o Espírito geme e intercede continuamente pelas necessidades da comunidade inteira, e donde se eleva sem cessar a acção de graças pela Vida que Ele concede em cada dia (cf. Col 3, 17).”
Instrução sobre a Vida Contemplativa e a clausura das monjas, «Verbi Sponsa», 8.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Mensagem do Arcebispo de Évora
para a Quaresma de 2012
“PRESTAI ATENÇÃO UNS AOS OUTROS” (Heb 10,24)
Quaresma foi instituída pela Igreja com a dupla finalidade de preparar os adultos para o Baptismo e todo o povo cristão para a celebração da solenidade da Páscoa. Tem-se mantido ao longo dos séculos como um tempo especial em que todos os cristãos são convidados a adoptar um estilo de vida em correspondência com os ideais evangélicos, dispondo-se a corrigir deficiências morais, purificar intenções e ampliar a prática das boas obras, pela qual se torna efectiva a lei sublime do amor ao próximo, resumo de toda a mensagem evangélica.
Querendo ajudar os cristãos de todo o mundo a viver este tempo sagrado da Quaresma em sintonia de pensamento e acção, Bento XVI, na peugada dos seus antecessores, todos os anos publica uma mensagem, chamando a atenção de todos os fiéis para alguma das situações mais cruciais do nosso tempo e apontando caminhos para ir ao seu encontro. Este ano, com palavras da Carta aos Hebreus, convida-nos a prestar atenção às pessoas que vivem à nossa volta, independentemente dos laços familiares que a elas nos possam unir. Pois, sendo todos nós membros da grande família humana, todos temos obrigação de prestar atenção uns aos outros. Afinal, todos temos uma origem e um fim comum. A paternidade única de Deus torna-nos a todos irmãos uns dos outros.
Se reflectirmos um pouco, facilmente concluiremos que o alerta do papa vem mesmo a propósito das situações difíceis que se vivem no nosso país, onde, dia a dia, crescem as dificuldades para muitos dos nossos concidadãos, por falta de alguém que lhes preste atenção, quando as dificuldades batem à porta. Tenhamos presentes os casos de pessoas de idade avançada que
vivem sozinhas e chegam mesmo a morrer sem que alguém se tenha dado conta, durante semanas, meses e até anos. Pensemos ainda nas pessoas que se encontram sem recursos económicos para viver com um mínimo de dignidade, ficando reduzidas à desumana condição de miséria e, por vezes, sem um tecto onde se possam abrigar.
Infelizmente, são poucos os que prestam atenção a estes casos extremos. E, ao contrário, é cada vez maior o número dos que vivem centrados nos próprios interesses, enredados na espiral sem fim do consumismo, que funciona como autêntica anestesia espiritual, potenciadora de perniciosos egoísmos e propiciadora de um clima de fria indiferença a toda a espécie de infortúnios que se multiplicam a um ritmo cada vez mais acelerado.
Não poderá ser essa a atitude dos cristãos. Os discípulos de Jesus Cristo devem seguir os passos do seu Mestre. Ora, nunca Jesus voltou as costas ou ignorou os doentes nem os pobres. Antes pelo contrário. Foi ao seu encontro, fixou neles o olhar com amor, tomou-os pela mão com carinho e sarou-os. Não possuindo nós os poderes taumatúrgicos de Jesus não poderemos operar milagres. Mas, pela força do amor que foi derramado nos nossos corações, para nos abrir a mente e o coração, podemos prestar atenção, podemos amar, podemos ajudar, se quisermos. Basta que,
metendo a mão na consciência, sinceramente nos interroguemos sobre o que em concreto podemos fazer a favor dos nossos irmãos mais carenciados e nos decidamos a praticar as boas obras que estão ao nosso alcance.
Cada um de nós é convidado a estender a mão para levantar o caído, ajudar o pobre, consolar o desalentado, fazer companhia ao que vive em solidão, ensinar o ignorante, corrigir o que errou e rezar por todos. A Quaresma há-de ser um tempo sagrado que nos ajuda a viver uma relação autêntica de verdade com Deus, connosco mesmos e com os outros. Pois só nessa tríplice relação se concretiza a plenitude da vida, a que chamamos felicidade.
Com efeito, a Quaresma, instituída para nos ajudar a sermos felizes, convida-nos a prestar atenção aos outros, porque sem eles não podemos alcançar a vida plena. Eis a razão porque a Igreja também instituiu neste tempo a renúncia e a partilha dos bens com os mais carenciados. Este ano, o produto das renúncias voluntárias em tempo de Quaresma será entregue mais uma vez à Caritas Diocesana para que, através dos pólos distribuídos pela Arquidiocese, faça chegar aos que se encontram em dificuldades um sinal de fraternidade cristã e de amor de Deus.
Passada a Páscoa, peço aos Vigários da Vara que, em atitude de colaboração generosa e a exemplo do ano passado, juntem o produto da renúncia das paróquias da Vigararia e o façam chegar à Cúria.
Évora, 7 de Fevereiro de 2012,
Festa das Cinco Chagas do Senhor
+José, Arcebispo de Évora

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Celebração das Vésperas na Festa da Apresentação do Senhor
Homilia do Papa Bento XVI
Basílica Vaticana, 3ª feira, 2 de Fevereiro de 2011
Prezados irmãos e irmãs!
Na festa hodierna contemplamos o Senhor Jesus que Maria e José apresentam no templo «para O oferecer ao Senhor» (Lc 2, 22). Nesta cena evangélica revela-se o mistério do Filho da Virgem, o consagrado do Pai, que veio ao mundo para cumprir fielmente a sua vontade (cf. Hb 10, 5-7). Simeão indica-o como «luz para iluminar as nações» (Lc 2, 32) e anuncia com palavra profética a sua oferta suprema a Deus e a sua vitória final (cf. Lc 2, 32-35). É o encontro dos dois Testamentos, Antigo e Novo. Jesus entra no antigo templo, Ele que é o novo Templo de Deus: vem visitar o seu povo, obedecendo à Lei e inaugurando os tempos últimos da salvação.
É interessante observar de perto este ingresso do Menino Jesus na solenidade do templo, num grande «vaivém» de muitas pessoas, ocupadas com os seus afazeres: os sacerdotes e os levitas com os seus turnos de serviço, os numerosos devotos e peregrinos, desejosos de se encontrar com o Deus santo de Israel. Porém, nenhum deles se dá conta de nada. Jesus é um menino como os outros, filho primogénito de dois pais muito simples. Até os sacerdotes são incapazes de captar os sinais da nova e especial presença do Messias e Salvador. Só dois anciãos, Simeão e Ana, descobrem a grande novidade.
Guiados pelo Espírito Santo, eles encontram nesse Menino o cumprimento da sua longa espera e vigilância. Ambos contemplam a luz de Deus, que vem iluminar o mundo, e o seu olhar profético abre-se ao futuro, como anúncio do Messias: «Lumen ad revelationem gentium!» (Lc 2, 32). Na atitude profética dos dois anciãos está toda a Antiga Aliança que exprime a alegria do encontro com o Redentor. Ao virem o Menino, Simeão e Ana intuem que Ele é precisamente o Esperado.
A Apresentação de Jesus no templo constitui um ícone eloquente da doação total da própria vida por quantos, homens e mulheres, são chamados a reproduzir na Igreja e no mundo, mediante os conselhos evangélicos, «os traços característicos de Jesus casto, pobre e obediente» (
Vita consecrata, 1). Por isso, a Festa hodierna foi escolhida pelo Venerável João Paulo II para celebrar o anual Dia da Vida Consagrada. [...]
Gostaria de propor três breves pensamentos para a reflexão nesta Festa. O primeiro: o ícone evangélico da Apresentação de Jesus no templo contém o símbolo fundamental da luz que, partindo de Cristo, se irradia sobre Maria e José, sobre Simeão e Ana e, através deles, sobre todos. Os Padres da Igreja uniram esta irradiação ao caminho espiritual. A vida consagrada exprime este caminho de modo especial como «filocalia», amor pela beleza divina, reflexo da bondade de Deus (cf. ibid., 19). No rosto de Cristo resplandece a luz de tal beleza. «A Igreja contempla o rosto transfigurado de Cristo, para se confirmar na fé e não correr o risco de perder ao ver o seu rosto desfigurado na Cruz... ela é a Esposa na presença do Esposo, que participa do seu mistério, envolvida pela sua luz, [que] atinge todos os seus filhos... Mas uma singular experiência dessa luz que dimana do Verbo encarnado é feita, sem dúvida, pelos que são chamados à vida consagrada. Na verdade, a profissão dos conselhos evangélicos coloca-os como sinal e profecia para a comunidade dos irmãos e para o mundo» (Ibid., 15).
Em segundo lugar, o ícone evangélico manifesta a profecia, dom do Espírito Santo. Contemplando o Menino Jesus, Simeão e Ana vislumbram o seu destino de morte e ressurreição para a salvação de todos os povos e anunciam tal mistério como salvação universal. A vida consagrada é chamada a tal testemunho profético, ligado à sua dupla atitude contemplativa e activa. De facto, aos consagrados e consagradas é dado manifestar o primado de Deus, a paixão pelo Evangelho praticado como forma de vida e anunciado aos pobres e aos últimos da terra. «Em virtude desta primazia, nada pode ser preferido ao amor pessoal por Cristo e pelos pobres, nos quais Ele vive. A verdadeira profecia nasce de Deus, da amizade com Ele, da escuta diligente da sua Palavra nas diversas circunstâncias da história» (Ibid., 84). Deste modo a vida consagrada, na sua vivência diária pelos caminhos da humanidade, manifesta o Evangelho e o Reino já presente e concreto.
Em terceiro lugar, o ícone evangélico da Apresentação de Jesus no templo expressa a sabedoria de Simeão e Ana, a sabedoria de uma vida dedicada totalmente à busca do rosto de Deus, dos seus sinais, da sua vontade; uma vida dedicada à escuta e ao anúncio da sua Palavra. «“Faciem tuam, Domine, requiram”: busco a vossa face, ó Senhor (Sl 26, 8)... A vida consagrada é no mundo e na Igreja sinal visível desta busca do rosto do Senhor e dos caminhos que a Ele conduzem (cf. Jo 14, 8)... A pessoa consagrada testemunha portanto o empenho alegre e diligente da busca assídua e sábia da vontade divina» (cf. Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e para as Sociedades de Vida Apostólica, Instrução
O serviço da autoridade e a obediência. Faciem tuam Domine requiram [2008], 1).
Caros irmãos e irmãs, sede ouvintes assíduos da Palavra, porque toda a sabedoria de vida nasce da Palavra do Senhor! Sede perscrutadores da Palavra através da lectio divina, porque a vida consagrada «nasce da escuta da Palavra de Deus e acolhe o Evangelho como sua norma de vida». Deste modo, viver no seguimento de Cristo casto, pobre e obediente é uma “exegese” viva da Palavra de Deus. O Espírito Santo, por cuja virtude foi escrita a Bíblia, é o mesmo que ilumina a Palavra de Deus, com nova luz, para os fundadores e fundadoras. Dela brotou cada um dos carismas e dela cada regra quer ser expressão, dando origem a itinerários de vida cristã marcados pela radicalidade evangélica» (
Verbum Domini, 83).
Hoje vivemos, sobretudo nas sociedades mais avançadas, uma condição muitas vezes marcada por uma pluralidade radical, por uma marginalização progressiva da religião da esfera pública, de um relativismo que atinge os valores fundamentais. Isto exige que o nosso testemunho cristão
seja luminoso e coerente, e que o nosso esforço educativo seja cada vez mais atento e generoso. A vossa obra apostólica, em particular, dilectos irmãos e irmãs, se torne empenho de vida que acede com paixão perseverante à Sabedoria como verdade e beleza, «esplendor da verdade». Sabei orientar com a sabedoria da vossa vida, e com a confiança nas possibilidades inesgotáveis da verdadeira educação, a inteligência e o coração dos homens e das mulheres do nosso tempo em relação à «vida boa do Evangelho».
Neste momento, dirijo o meu pensamento com carinho especial a todos os consagrados e consagradas, em todas as partes da terra,
enquanto vos confio à Bem-Aventurada Virgem Maria:
Ó Maria, Mãe da Igreja,
confio-te toda a vida consacrada,
para que lhe obtenhas a plenitude da luz divina:
viva na escuta da Palavra de Deus,
na humildade da sequela de Jesus, teu Filho e nosso Senhor,
no acolhimento da visita do Espírito Santo,
na alegria diária do magnificat,
a fim de que a Igreja seja edificada pela santidade de vida
destes teus filhos e filhas,
no mandamento do amor. Amém!