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segunda-feira, 20 de abril de 2009

quinta-feira, 19 de março de 2009

Campo Maior,
berço de Santa Beatriz da Silva

Por vezes, é fácil confundir “bairrismo” com “amor à verdade”. No que diz respeito ao lugar do nascimento de Santa Beatriz da Silva (Campo Maior ou Ceuta?), infelizmente, para aqueles que defendem uma tradição de 426 anos, com testemunhos e documentos absolutamente credíveis, que dão a Campo Maior a honra de ser o berço de Beatriz são apelidados de “bairristas” e os defensores de Ceuta teimam em não averiguar e estudar uma tradição de quase 500 anos, agarrando-se a uma obra, “História de Ceuta”, escrita em 1648, pelo português H. de Mascaranhas, ao serviço de Espanha, que diz “deverá” Beatriz ter nascido na cidade africana de Ceuta, quando têm à sua disposição, variadíssima documentação que prova as origens Campomaiorenses de Beatriz.
Por agora detemo-nos em: Santa Beatriz de Silva, Positio sobre la vida y virtudes (traducción española), en el 25 aniversario de su canonización - Toledo - 2001. Obra fundamental que resume toda a documentação histórica de um candidato às honras dos altares.
A citada “Positio”, nos dados biográficos da Santa afirma que esta nasceu em Ceuta: “La Beata Beatriz nasció en Ceuta el año 1424 ó 1426”[1] mais adiante (páginas 179 a 241), dos oito[2] testemunhos recolhidos a quando do início do processo de canonização entre Maio e Julho de 1636[3], só dois, o de Maria de Miño y Frías[4] e o de Maria de Ulloa[5] não referem o local do nascimento[6], os restantes seis afirmam que a Santa nasceu em Campo Maior, diocese de Elvas[7], reino de Portugal.
Há ainda que referir que dos 8 testemunhos recolhidos para o processo e referidos na “Positio”, absolutamente nenhum se refere a Ceuta, muito menos como o local de nascimento de Beatriz da Silva e Meneses.
Há ainda a referir, os relatos biográficos escritos entre 1512 e 1526, publicados e comentados na “Positio” (páginas 43 a 94). Os dois mais antigos referem Campo Maior como o local de nascimento de Beatriz:
- “... e o que se sabe é que nasceu esta senhora em Campo Maior” (notícia biográfica escrita provavelmente em Janeiro de 1512 e encontrada no sepulcro no ano de 1518, escrita por Joana de São Miguel, vigaria do mosteiro da Conceição de Toledo[8]);
- “O que se sabe é, que esta senhora nasceu em Campo Maior” (vida da venerável dona Beatriz da Silva, fundadora da Ordem da Imaculada Conceição, escrita entre 1515 e 1526[9]);
- Os outros dois[10] documentos, não referindo Campo Maior como local de nascimento, dizem-na “…natural do reino de Portugal”, ou “… mulher de nação portuguesa”. Em nenhum dos quatro documentos sequer se refere Ceuta, como local de nascimento, ou por qualquer outro motivo.
De facto, causa muita estranheza que uma tradição de 426 anos que dá a Santa nascida em Campo Maior, seja preterida em favor de um texto - o de Mascaranhas, escrito em 1648 (152 anos depois da morte da Santa), nunca publicado e completamente esquecido durante 270 anos - arrancado ao completo esquecimento e publicado em 1918[11], sobrepondo-se a uma tradição secular confirmada por documento e testemunhos referidos na “Positio”.
Ao ler a Bula da Canonização e a Homilia da mesma, do papa Paulo VI, o argumento a favor de Campo Maior cairá por terra, pois o papa diz que Beatriz nasceu em Ceuta[12]. Contudo, há que dizer que o Romano Pontífice é “infalível” em questões de Fé e Tradição, não em História. Mais ainda, muito provavelmente, o Papa trabalhou a partir dos elementos que lhe foram facultados e muito provavelmente apresentaram-lhe Beatriz nascida em Ceuta e não a tese, testemunhos, documentação e argumentação que a dão como natural de Campo Maior.
Dos oito testemunhos recolhidos entre Maio e Junho de 1636 para o processo de canonização da serva de Deus Beatriz da Silva, seis[13], à pergunta sobre o lugar do nascimento da fundadora da Ordem da Imaculada Conceição, afirmam que a que a Santa nasceu em Campo Maior, diocese de Elvas, reino de Portugal.
No espaço que se segue, transcrevemos a resposta das referidas seis testemunhas à pergunta do local de nascimento da Senhora Dª Beatriz da Silva.
1. Mariana de Luna, abadessa do mosteiro da Santíssima Conceição de Toledo (ff. 75-98)[14]
Foi a primeira interrogada, a 10 de Maio de 1636, Mariana de Luna, abadessa do Mosteiro das Concepcionistas de Toledo. É a mais idosa das monjas examinadas durante o processo. Natural de Toledo, naquele tempo tinha 71 anos e havia 60 que se encontrava no mosteiro da Conceição no qual tinha entrado a 25 de Abril de 1575. Portanto, conhecia bem a tradição do mosteiro em torno da Beata Beatriz. E o seu conhecimento une-se com a própria beata. Enquanto estava viva. Com efeito, a testemunha menciona algumas monjas das quais ouviu o que afirma; e uma destas, Guiomar de Avellaneda, tinha entrado na Ordem em 1500, a qual teve que conhecer as companheiras da fundadora e conservar as mais antigas memórias.
À 1ª pergunta disse que, seguindo a tradição que esta testemunha tem desde há 60 anos em que entrou para se fazer monja neste convento, ouviu dizer às monjas que estavam no convento que a venerável madre dona Beatriz da Silva nasceu na cidade de Campo Maior no reino de Portugal, diocese de Elvas.
2. Joana de Leiva, monja do mosteiro da Santíssima Conceição de Toledo (ff. 99-130)[15]
Na sessão de 14 de Maio de 1636 foi interrogada a monja Joana de Leiva de 46 anos, nascida em Bruxelas e que entrou no mosteiro da Conceição aos 10 anos de idade. Era filha da princesa de Áscoli, testemunhou neste processo e do qual copiaremos a sua declaração. Também este testemunho confirma a tradição do mosteiro, da qual na realidade provém o seu conhecimento sobre a beata.
Beatriz da Silva, todas de vida exemplar. Dirá tudo o que sabe por tradição e por tê-lo lido no livro da fundação e em outras histórias. Disse portanto que é coisa notória que a dita dona Beatriz da Silva nasceu na cidade de Campo Maior, diocese de Elvas, em Portugal…
3. Madalena Porcia, princesa de Áscoli (ff. 457-479)[16]
Ainda que não pertencesse à Ordem Concepcionista, a princesa de Áscoli viveu trinta e oito anos no mosteiro da Conceição de Toledo, dos quais esteve 17 em clausura. Foi benfeitora do mosteiro, especialmente conhecida porque em 1618 fez arranjar o sepulcro da Beata. A declaração desta testemunha não se distancia da das monjas Concepcionistas, contudo é interessante na medida que provém de uma pessoa leiga que viveu longos anos naquele ambiente religioso.
À 1ª pergunta respondeu sua excelência que havia mais de 38 anos que tinha entrado no convento, dos quais havia vivido 17 em clausura; no início conheceu no mesmo convento a Catarina de São Paulo, Maria de São Jerónimo, dona Isabel de Peralta e dona Joana de Sotomayor e dona Petronila de Rojas, pessoas muito idosas, muitas das quais foram abadessas neste convento e de vida santa, as quais diziam ter tido convivência com as religiosas que entraram nos primeiros tempos desta Ordem no primeiro convento da fundação. Disse que conhecia a todas as demais religiosas que tinha encontrado neste convento e que por isso tudo o que dizia era, por tradição, notório e público, proveniente das primeiras religiosas da Ordem, até àquelas que referiu e também pelas histórias que tinha lido num livro antigo que se encontrava naquele convento sobre a fundação da Ordem. Sabia, pois, que a venerável dona Beatriz da Silva tinha nascido em Campo Maior, na diocese de Elvas, no reino de Portugal…
4. Francisco Pablo Inza, médico do mosteiro da Santíssima Conceição de Toledo (ff. 501-504)[17]
O médico do mosteiro da Santíssima Conceição de Toledo, Francisco Pablo Inza, de quase 60 anos de idade, natural de Valência, foi interrogado a 21 de Junho de 1636. E a ele só lhe foram feitas duas perguntas, a I e a XXXI. Depois de ter respondido sobre a fama de santidade que Beatriz goza universalmente, informa a respeito de algumas curas milagrosas. A sua declaração confirma também a convicção geral de que Beatriz é uma santa.
À 1ª pergunta respondeu que desde há uns dez anos era o médico do Convento da Conceição desta cidade, e que, pelas histórias que tinha lido e por ter falado com pessoas tanto do dito convento como seculares (leigos), sabia que a venerável dona Beatriz da Silva, nasceu na cidade de Campo Maior, na diocese de Elvas, no reino de Portugal…
6. Gaspar Téllez, leigo e tio de uma das monjas da Santíssima Conceição de Toledo (ff. 599-620)[18]
É um secular (leigo), natural das Ilhas Canárias e residente em Toledo há mais de trinta e nove anos. Conheceu o mosteiro da Conceição de Toledo, porque nele se encontrava como monja uma sobrinha de sua mulher. Também a sua declaração, feita a 30 de Junho de 1636, confirma a fama de santidade, mais ainda, ele refere um facto milagroso conhecido por ele pessoalmente.
À 1ª pergunta respondeu que tudo o que ele dirá soube-o por tradição, fama pública e histórias lidas, e também porque está no Convento da Puríssima Conceição desta cidade dona Maria Espinosa Monteflor, monja professa, sobrinha de dona Francisca Monteflor, sua mulher, que entrou no Convento há doze anos, e porque conhece o Convento desde há uns trinta anos. Sabe, portanto que a venerável dona Beatriz da Silva nasceu na cidade de Campo Maior, no reino de Portugal, da diocese de Elvas…
8. Maria de Aragón, monja Dominicana do mosteiro da “Madre de Deus” de Toledo (ff. 693-704)[19]
A testemunha é uma das monjas mais idosas do mosteiro da “Madre de Deus”, no qual por algum tempo foram conservados os ossos de Beatriz. Natural de Guadalajara, de 60 anos de idade, foi interrogada a 9 de Julho de 1636. A sua declaração não apresenta notícias desconhecidas aos outros testemunhos. Confirma, sem dúvida, que também neste mosteiro Beatriz é considerada como uma santa. O testemunho refere também um milagre que aconteceu no translado dos ossos do mosteiro da “Madre de Deus” para o mosteiro da Conceição.
À 1ª pergunta respondeu que tudo o que sobre esta causa podia dizer o tinha conhecido por tradição, por fama e por história, e que tudo o tinha aprendido no convento. Sabia que a venerável dona Beatriz da Silva tinha nascido na cidade de Campo Maior, no reino de Portugal…
[1] Ordem de la Imaculada Concepción – Confederación “Santa Beatriz de Silva”, “Santa Beatriz de Silva: Positio sobre la vida y virtudes” (traducción española), en el 25 aniversario de su canonización - Toledo – 2001, pg. 1.
[2] Os testemunhos recolhidos entre Maio e Julho de 1636 para o processo de canonização são 48, contudo só 8 são utilizados na “Positio”.
[3] O início do processo de canonização e a recolha dos 48 testemunhos sobre a fama de santidade de Beatriz e dos 12 testemunhos sobre os dois milagres que lhe são atribuídos (Julho de 1638) aconteceu cerca de 145 anos depois da morte da Santa.
[4] Superiora do Convento das Comendadoras de Santiago, que habitavam o convento de Santa Fé, no qual Santa Beatriz fundou a Ordem.
[5] Monja dominicana do mosteiro de São Domingos “O Real”.
[6] E entende-se perfeitamente o porquê da omissão do local do nascimento, pois não sendo da Ordem fundada pela Santa, não tinham acesso às mesmas informações das monjas da Ordem e certamente eram pormenores que não lhe interessavam sobremaneira, e se perderam com o passar dos anos, o que retiveram e lhe interessava a elas e a quem as interrogava era o testemunho de santidade de Beatriz que perdurava quer entre as Dominicanas de São Domingos “O Real”, quer entre as Comendadoras de Santiago de Santa Fé.
[7] A quando do nascimento de Santa Beatriz da Silva (séc. XV), Campo Maior pertencia à diocese de Évora, contudo, a quando da recolha dos testemunhos (séc. XVII), pertencia à entretanto criada diocese de Elvas [O Papa Pio V, pela Bula "Super cunctas" de 9 de Junho de 1570, destacou a parte oriental da diocese de Évora, para constituir a Diocese de Elvas (a que passou a pertencer a Vila de Campo Maior), que ficou sufragânea de Évora]. Actualmente, com a extinção da diocese de Elvas [com a remodelação diocesana ordenada por Leão XIII com a Bula "Gravissimum Christi" de 3 de Setembro de 1881, a diocese de Elvas foi extinta, passando o seu território a integrar a arquidiocese de Évora], Campo Maior voltou, portanto, a pertencer à arquidiocese de Évora. Assim sendo, à época do nascimento da Santa Campomaiorense, Campo Maior pertencia à diocese de Évora, à época dos testemunhos para o processo de canonização pertencia à diocese de Elvas, daí o “nasceu em Campo Maior, diocese de Elvas, reino de Portugal”.
[8] Ordem de la Imaculada Concepción – Confederación “Santa Beatriz de Silva”, “Santa Beatriz de Silva: Positio sobre la vida y virtudes” (traducción española), en el 25 aniversario de su canonización - Toledo - 2001, pg. 38-42.
[9] Idem pg. 43-58.
[10] Ibidem pg. 58-94.
[11] Precisamente em pleno processo de beatificação por confirmação de Culto Imemorial, iniciado em 1910 e terminado a 28 de Julho de 1926.
[12] Ordem de la Imaculada Concepción – Confederación “Santa Beatriz de Silva”, “Santa Beatriz de Silva: Positio sobre la vida y virtudes” (traducción española), en el 25 aniversario de su canonización - Toledo - 2001, pgs. 359 a 367 .
[13] Ver notas 4, 5 e 6.
[14] Ordem de la Imaculada Concepción – Confederación “Santa Beatriz de Silva”, “Santa Beatriz de Silva: Positio sobre la vida y virtudes” (traducción española), en el 25 aniversario de su canonización - Toledo - 2001, pg. 179.
[15] Idem, pg. 191 e 192.
[16] Ibidem, pg. 205 e 206.
[17] Ibidem, pg. 214 e 215.
[18] Ibidem, pg. 220.
[19] Ibidem, pg. 235.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008



"Consumi-me de zelo
em defesa da honra
da minha Mãe Imaculada
e Ela livrou-me
de todas as tribulações".
frase atribuída a
Santa Beatriz da Silva

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Ocorre, hoje, o 32º aniversário da solene Canonização da alentejana campomaiorense Beatriz da Silva e Meneses.
A cerimónia decorreu na Basílica de São Pedro do Vaticano, em Roma, a 3 de Outubro de 1976, tendo sido presidida pelo Romano Pontífice de então, o Papa Paulo VI.

Queremos fazer memória deste acontecimento eclesial tão importante para Portugal, pois Santa Beatriz da Silva, até ao momento, é a única mulher portuguesa a ser canonizada.
Fórmula da Canonização
(pronunciada pelo Papa Paulo VI)
Em honra da Santa e Indivisa Trindade,
para a exaltação da fé Católica
e incremento da vida cristã,
com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo,
dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo e a Nossa,
depois de madura deliberação
e implorando muitas vezes o auxílio divino,
e com o conselho de muitos dos Nossos Irmãos,
decretamos e definimos que
a Beata Beatriz da Silva É SANTA,
e a inscrevemos no catálogo dos Santos,
estabelecendo que deve ser venerada com piedosa devoção
entre os Santos da Igreja Universal.
Em Nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Ámen.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Publicada nova Biografia
de Santa Beatriz da Silva
No 1º fim de semana de Setembro, durante as festas de Santa Beatriz, em Campo Maior, foi posto à venda um ensaio sobre a vida e obra da Santa Campomaiorense.
A obra da autoria de José Félix Duque, com 385 páginas, tem por título Dona Beatriz da Silva, Vida e Obra de uma mulher forte”, foi publicada pelas Edições Labyrinthus.
O autor, baseando-se nas fontes biográficas primitivas e em documentos até agora desconhecidos, põe à disposição do leitor um ensaio inovador sobre a fundadora da Ordem monástica da Imaculada Conceição, sendo a mais completa biografia de Santa Beatriz da Silva, única mulher nascida em Portugal, até ao momento, a ser canonizada (em 1976).
É de destacar neste ensaio a documentação e argumentação, que deita por terra a descarada e desonesta manipulação de fontes usada por Jerónimo de Mascarenhas (século XVII, 211 anos depois do nascimento da Santa, 1648), numa obra nunca publicada nem divulgada: “Historia de la ciudad de Ceuta”, estranhamente arrancada ao completo esquecimento e publicada em inícios do século XX (1918, 270 anos depois de escrita e 481 depois do nascimento da Santa), em pleno processo de Beatificação que dá a Santa como nascida em Ceuta, depois de mais de 4 séculos de tradição e documentação que a dão inequivocamente nascida na vila alentejana de Campo Maior.
A obra pode ser adquirida, em várias livrarias, pedindo directamente à editora, no Mosteiro de Santa Beatriz da Silva de Viseu e no Mosteiro da Imaculada Conceição de Campo Maior.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Santa Beatriz da Silva
virgem e fundadora
memória litúrgica: 1 de Setembro

Resumo Biográfico
Nasceu em Campo Maior, Alentejo (arquidiocese de Évora) por volta de 1437. Ainda muito jovem, passou à corte de Castela em 1447 como dama de honor da Infanta D. Isabel de Portugal. Para se poder dedicar a uma vida cristã mais perfeita, retirou-se da corte para o mosteiro dominicano de São Domingos "O Real" de Toledo, onde permaneceu mais de 30 anos. como leiga e hóspede. Em 1484 fundou a Ordem da Imaculada Conceição (Monjas Concepcionistas), que foi aprovada pelo papa Inocêncio VIII em 1489. Em 1511 o Papa Júlio II atribui-lhe Regra própria. Faleceu com fama de santidade a 9 de Agosto de 1492. Foi canonizada por Paulo VI a 3 de Outubro de 1976.
Espiritualidade da Santa
São três os elementos fundamentais da sua espiritualidade: A Paixão de Cristo, O Santíssimo Sacramento do Altar e A Imaculada Conceição de Maria.
A Paixão
Da sua contemplação nutria a sua caridade: "Desde muito menina mostrou-se devotíssima da Paixão de Jesus Cristo... e desta devoção tirava grandes desejos de padecer por amor de Deus e do próximo, querendo antes morrer que o seu próximo passasse alguma necessidade". (Testemunho da princesa de Asculi no Processo, Folio 422)
A Sagrada Eucaristia
"Foi muito devota do Santíssimo Sacramento do Altar... mesmo se frequentava Este Manjar... continuava uma comunhão espiritual sem interrupção... tirando da sua assistência ao Santíssimo Sacramento... o conservar a sua pureza angelical e de viver retirada de todas as coisas do mundo. Este era o seu descanço, e a sua alegria estava em fazer tudo o que lhe parecia ser do gosto do seu doce esposo Jesus" (sor Catarina de Santo António, O.C. p. 67). Nos dizem os testemunhos do processo que falava com os sacerdotes de joelhos, considerando neles a alteza do seu sagrado ministério ligado ao Sacramento do Altar.
A Santíssima Virgem na Sua Imaculada Conceição
A tarefa, o carisma específico que Beatriz dexou à Igreja, consiste em viver uma vida de louvor à Trindade pelo facto de ter criado Maria fazendo-a Imaculada. Esse louvor vivve-se em oferenda da própria vida associada ao mistério Eucaristico: "oferecer os vossos corpos como hóstia viva, santa, agradável a Deus, e não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da mente para que saibais discernir o que é Vontade de Deus, o bom, o que Lhe agrada, o perfeito". A dimensão apostólica desta vida, encontra-se no culto liturgico ao Mistério da Conceição Imaculada de Maria, e à irradiação ou comunicação às almas da presença de Mãe de Deus, fazendo-lhes perceber como actua Maria na vida espiritual das almas, introduzindo-as e elevando-as até ao mais alto da santidade.
A vocação concepcionista é pois um chamamento a dedicar a vida em íntima união com Maria à contemplação da sua Conceição Imaculada, oferecendo ao mundo uma lição de procura pela obediência d'Aquele de quem o homem se tinha afastado por causa da sua desobediência. A concepcionista deseja colaborar assim com a graça mediante o exercício de uma vida monástica escondida na adoração eucarística, na solidão e no siêncio, a fim de contribuir, conforme o desejo Divino, a restabelecer a ordem original da criação: o diálogo da criatura com o Criador.
Esta forma de vida, idubitávelmente alta forma de santidade, não deixa de conter uma mensagem oportuna para o momento presente. O homem de hoje, com frequência céptico e relativista perante a verdade e o bem, possui um marcado acento e sensibilidade pela beleza. Santa Beatriz, mulher admirada pelas suas grandes prendas de corpo e de alma, ensina-nos onde se encontra a fonte da beleza eterna, reflectida nitidamente no Mistério da Imaculada. Nas Palavras do Papa Paulo VI durante a homilia pronunciada na cerimónia de canonização de Beatriz, é no Mistério da Conceição de Maria, onde para a santa fundadora "está encerrado o segredo da sua experiência espiritual e o da sua santidade... a branca limpeza da Virgem foi o ideal da sua vida". Afirma o Papa que esta mensagem é actual para um mundo permissivo que com frequência, "em nome de uma mal entendidad liberdade..., inverte os valores da honestidade, do pudor, da dignidade, do direito dos outros. Quer dizer, dos valores sobre os que se baseia qualquer convivência civil ordenada".
(da homilia pronunciada por Sua Excia Revma o Sr. D. Manuel Monteiro de Castro, núncio apostólico em Espanha, a 17 de Agosto de 2001, no Proto-Mosteiro da Ordem da Imaculada Conceição/Toledo)

domingo, 17 de agosto de 2008

Da Homilia de Paulo VI
na canonização de Stª Beatriz da Silva
... a elequência mais evidente da vida
Da nova Santa não nos é possível tecer o breve elogio que se costuma fazer no momento de uma canonização e que parece projectar perante os nossos olhos radiantes os traços de um rosto glorioso porque, assim como o rosto extraordinário, belo e puro de Beatriz da Silva permaneceu velado por longos anos da sua vida terrena, até à sua bem-aventurada morte, assim também muitos aspectos da sua biografia só chegaram até nós por reflexos, como PER SPECULUM IN AENIGMATE - através de um espelho e de modo confuso - (cf. 1 Cor 13, 12), na documentação histórica através da qual ela transparece como figura inocente, humilde e luminosa, apesar de não conceder à nossa humana mas legítima curiosidade sinal algum de expressão pessoal. Assomam aos lábios as palavras de Dante: OV'E BEATRIC - onde estás Beatriz? - (A Divina Comédia, Paraíso, canto 32, verso 85); ou as palavras bíblicas em que vibra o amor místico: MINHA POMBA ... MOSTRA-ME O TEU ROSTO, FAZ-ME OUVIR A TUA VOZ, PORQUE A TUA VOZ É SUAVE E GRACIOSO O TEU ROSTO (Ct 2, 14).
Porque efectivamente, nenhuma palavra desta Santa chegou até nós nas suas sílabas textuais, e por conseguinte, nenhum eco da sua voz; nem escrito algum da sua mão, ou algum retrato do seu rosto demasiado belo, como se dizia, para que não fosse, na sua juventude, causa de turbação. E nem sequer os estatutos definitivos da Regra para a família religiosa que Ela fundou, inaugurando com a sua própria morte o nascimento da mesma família.
Mas, então, uma pergunta surge no espírito de quem dirige a atenção e a devoção para esta cidade do céu: será uma lenda a sua vida? Será fruto de um mito? Não, não é! Beatriz da Silva antes de entrar no reino eterno do céu, foi cidadã da terra: e o seu registo, e mais ainda a sua obra de Fundadora de uma nova e ainda hoje florescentíssima Família Religiosa, a das Monjas da Santíssima Conceição de Maria, não deixam dúvida alguma, antes conferem certeza particular e edificante exemplaridade à história hagiográfica desta esplêndida figura.
Santa Beatriz da Silva, portuguesa de nascimento, passou a maior parte da sua existência terrena em terras de Espanha, Mulher que ao nosso coração de crentes fala, se não com os escritos, sim com a eloquência mais convincente da vida.
(da Homilia de Paulo VI, proferida na Canonização de Santa Beatriz da Silva a 3 de Outubro de 1976, na Basílica Vaticana de São Pedro)

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Santa
Beatriz da Silva e Menezes
oic
Virgem Portuguesa e Fundadora
da Ordem da Imaculada Conceição

memória litúrgica: 1 de Setembro (Portugal),
17 de Agosto (Igreja Universal)
por Padre Marcelino José Moreno Caldeira
A família
"...educada
num profundo espírito e virtudes cristãs."

De nobilíssima família portuguesa, Beatriz da Silva e Menezes, nasceu na graciosa e ensolarada vila alentejana de Campo Maior, no ano de 1437. Filha de D. Rui Gomes da Silva, Alcaide-Mor da já mencionada vila de Campo Maior e Ouguela e de Dona Isabel de Menezes, que era filha de D. Pedro de Menezes que foi Governador da Praça de Ceuta, nessa altura pertencente à coroa dos reis de Portugal. Os pais de Beatriz pertenciam à primeira nobreza e estavam ainda aparentados com a família real.
Beatriz passou a sua infância e adolescência nesta nobre vila, rodeada do carinho de seus pais que a educaram num profundo espírito e virtudes cristãs.
Foi a oitava de doze irmãos: Pedro, Fernando, Diogo, Afonso, João (Beato Amadeu da Silva, fundador do ramo franciscano dos frades Amadeus, hoje extinto), Branca, Guiomar, Beatriz, Maria, Leonor, Catarina e Mécia.
Na Corte
"...enchia de fervor com o seu exemplo".
Para Beatriz decorria tranquila a vida no velho solar de Campo Maior. Totalmente entregue a Deus, tinha esquecido o mundo com toda a sua agitação, embora vivesse nele.
Mas o Senhor tinha-a criado para coisas maiores que esta vida calma, e, para isso, tinha de a fazer passar pelo crisol do sofrimento, como costuma sempre fazer com os eleitos do seu coração.
Quando chegou, Beatriz cujos predicados e virtudes raramente se vêm em humana criatura, deram motivo à rainha Dona Isabel, filha de D. Duarte, rei de Portugal, e esposa em segundas núpcias de D. João II de Castela para levar por sua dama, para a Corte, a jovem Beatriz, que era sua parente muito chegada. Primeiro para Lisboa e a quando do casamento com D. João II de Castela, para Tordesilhas. A virtuosa dama era o mimo, e todo o desvelo da rainha que não podia estar sem ela um só instante. Só a jovem dama conseguia moderar alguns dos excessos da temperamental rainha de Castela que, se enchia de fervor com o seu exemplo e, quando a via entre as Senhoras e Damas da Corte de Castela, tinha grande satisfação de que a sua portuguesa brilhasse, como a mais bela das rosa entre as flores, e resplandecesse, como lua entre as estrelas. Diz-nos uma biografa da Santa, que Beatriz "era formosíssima, prudente, afável, inteligente, composta e de muita gentileza", e outro autor: "que era bela, maravilhosamente bela, até ao deslumbramento".
O Ciúme
"...procurava viver em recolhimento,
dando todo o seu amor e o maior tempo possível a Deus,
o verdadeiro Senhor do seu coração."

Costuma dizer-se que há males que vêm para bem, e vice-versa, que há bens que vêm para mal. E foi precisamente o caso de Beatriz. Porque a felicidade humana é inconstante e falível, não podiam durar por muito tempo os excessos de carinho e de atenção da rainha para com a jovem dama portuguesa.
A sua beleza, graciosidade e doçura, levou muitos nobres a pretendê-la para casar, aos quais, ela negou sempre a sua mão.
Mas, o facto mais doloroso, foi causado pelo ciúme da rainha que, chegou ao cúmulo de a fechar num cofre, para que Beatriz ali morresse asfixiada. Tudo por ciúme, devido às atenções que o rei dava à jovem, que, de forma alguma, procurava atrair sobre si as atenções de quem quer que fosse, muito pelo contrário, procurava viver no recolhimento, dando assim todo o seu amor e o maior tempo possível ao Pai Eterno, o verdadeiro Senhor do seu coração.
A visão
"...a sua vocação: fundar uma Ordem
com o fim de honrar a Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria".

Foi, porém, naquela prisão, que a Santa recebeu em plenitude o "Dom de Deus", e lhe foi dada a conhecer a sua futura missão, a sua vocação: a de fundar uma Ordem, com o fim de honrar a Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria.
Nos três dias que permaneceu naquela escura prisão, apareceu-lhe a Santíssima Virgem com o menino nos braços. Trazia vestido um hábito todo branco e escapulário da mesma cor, e a cobri-la um manto azul.
Era vontade de Deus e de Maria que, Beatriz, fundasse uma Ordem destinada a defender e honrar o Mistério da Imaculada Conceição.
O inesperado
"...a rainha deu-lhe licença e liberdade
para ir viver aonde mais fosse de sua vontade".

O desaparecimento da jovem dama, provoca no seu tio D. João de Menezes (que também se encontrava na corte de Tordesilhas, ao serviço de D. João II de Castela), grande preocupação, até porque ele sabia do grande ciúme que a rainha nutria por Beatriz e temia o pior.
À pergunta de D. João de Meneses a Dona Isabel, sobre o paradeiro da sobrinha, a rainha respondeu-lhe «que viesse vê-la», e levou-o ao sítio onde a deixara encerrada, certa de que, ao abrir o cofre, a encontraria morta.
Viva a viu aparecer, e mais bela do que nunca! A rainha, pasmando do que tinha diante de si, não atinava que dizer - conta soror Catarina - e, assombrada duma coisa tão inesperada, não queria dar crédito aos seus próprios olhos, que viam o que naturalmente era impossível sucedesse.
Com este espanto, e, ao mesmo tempo, para se livrar da ocasião de voltar a criar problemas à dama Beatriz, a rainha deu-lhe licença e liberdade para ir viver aonde mais fosse de sua vontade. Certamente que esta «experiência de encarceramento» foi, na vida de Beatriz, um marco importante que a levou a dar uma grande viragem no rumo da sua vida e a levou a abandonar a vida palaciana da corte de Tordesilhas e a retirar-se para Toledo.
Em viagem
"Este encontro deixou-lhe na alma uma grande consolação
e abriu-lhe o entendimento às realidades sobrenaturais".

A viagem para Toledo foi longa, arriscada e muito difícil, o que revela a personalidade forte e decidida de Beatriz.
É significativo, o episódio que ocorreu durante a viagem e que, todos as biógrafos da santa, são unânimes em relatar.
"Foi o caso que, no caminho para Toledo, ao passar por um monte (Beatriz), viu sair de trás dele dois religiosos da Ordem do meu Padre S. Francisco, e, julgando fossem enviados da rainha a fim de a confessarem para que depois lhe fosse tirada a vida, entrou, em grande temor; e não foi muito, que assim fizesse, quem havia experimentado os arrojos do zeloso peito duma rainha. (...) Acercaram-se os religiosos, e, um deles, que por seu modo parecia português, saudando-a na sua língua materna, lhe perguntou a causa da sua aflição e pena".
Depois de saberem dos temores da nobre viajante, tranquilizaram-na os dois frades e falaram-lhe da fundação da Ordem da Imaculada Conceição. E, assim, foram conversando durante a viagem para Toledo. Mas tal como os discípulos de Emaús, também os dois frades desapareceram aos olhos de Beatriz e da sua comitiva, quando esta insistiu com eles, para que partilhassem com ela a ceia na próxima pousada.
Este encontro deixou-lhe na alma uma grande consolação e abriu-lhe o entendimento às realidades sobrenaturais e compreendeu que os seus companheiros de viagem eram Santo António de Lisboa e São Francisco de Assis.
Em São Domingos "O Real"
"Florescia em todas as virtudes, era tida por santa e obrava milagres".
Depois do sucedido e, com a autorização da rainha, Beatriz, retirou-se para a cidade de Toledo, onde viveu, voluntariamente, em completo encerramento, no Convento Dominicano de São Domingos O Real, ou O Antigo. Ali passou trinta longos anos, como senhora de piso, longe de tudo e de todos os seres queridos e totalmente desprendida das vaidades terrenas e desejos mundanos. E, como a formosura do seu rosto foi a causa de tantas discórdias na corte, cobriu o rosto com um véu branco durante o resto da sua vida, salvo em raríssimas excepções.
No mar, o navio é presa fácil do risco dos ventos, se, porém, chegar a um calmo e tranquilo porto, já não teme calamidades, mas está seguro. Também Beatriz, enquanto se encontrou no meio dos homens, contou com tribulações, riscos e embates contra a sua sensibilidade. Mas, ao chegar ao porto do silêncio, para ela preparado, não mais teve medo, e entrega-se toda nas mãos de Deus, confiando no Seu amor sem medida.
Não fazia parte das religiosas que compunham a comunidade, mas, ali vivia como uma delas, em completa vida de clausura. Como nos canta soror Catarina: Beatriz "Florescia em todas as virtudes e comia parcamente, que era tida por santa e obrava milagres, que se distinguiu sempre por sua humildade e obediência às superioras" do dito Convento de São Domingos O Real e a sua vida era verdadeiramente exemplar. Das rendas, que possuía, reservava uma moderada parte para o tratamento, e decência da sua pessoa, e, tudo o mais, o gastava em esmolas e Deus. E só pela entrega total de si mesmo se entra neste caminho de perfeição e de união com Deus. Contudo, quem diz "entrega total", diz "renúncia total". Deus de todos espera o desapego completo de tudo o que não seja Ele. O mais pequeno vínculo impede a alma de levantar voo. Por isso, é urgente perder tudo, para ganhar O Tudo. É urgente entregar tudo o que temos e somos sem hesitação.
O mercador de pérolas do Evangelho, vendeu todos os seus bens para comprar a pérola mais fina que tivera a sorte de encontrar. Beatriz, por sua vez, renunciou à sua luminosa beleza, à sua posição social, à sua fortuna e à possibilidade de fazer um casamento invejável, aos olhos do mundo, para se fechar num Convento, onde nem sequer era freira. Assim, sem vínculo nenhum, poderia levantar voo e voar na imensidão do amor de Deus e saciar a sua sede na fonte da Água Viva. Preparando-se desta forma, para a Obra a que fora destinada pela Imaculada.
A espera
"...mantinha-se simplesmente à escuta do que Deus lhe ordenava".
A nós, que vemos os acontecimentos no seu aspecto meramente exterior, sem muitas vezes, poderem apreender-se as realidades profundas que essas aparências encobrem, parecerá incompreensível esta demora tão grande em realizar planos que se sabia serem divinos. Que significavam tantos anos de aparente inacção, segundo os nossos juízos? Que fazia Beatriz da Silva e Meneses em São Domingos O Real, onde, nem sequer era religiosa? Porque esperava?
Ora, tais circunstâncias, levam-nos a crer que ela se mantinha simplesmente à escuta do que Deus lhe ordenava. Ia-se exercitando na conquista de uma das virtudes mais difíceis de praticar quando se deseja um bem que tarde em vir; a paciência, na perfeita conformidade com a Vontade de Deus.
"Poucas vezes uma fundadora terá sido preparada tão profunda e prolongadamente para a sua missão carismática".
Quando ela atingiu o grau de perfeição na virtude requerido para empreendimento tão sublime, corria o ano de 1484, recebeu então a ordem aguardada durante trinta longos anos entre os muros de São Domingos "O Real". E logo se seguiu um período de intensa actividade, a esses longos anos vividos na obscuridade e no silêncio do claustro.
Os preparativos
"Com a sua admirável generosidade,
passou a dar-se sem reservas,

ao cumprimento da missão que Deus lhe confiava".

Dizem os biógrafos da Santa fundadora, que lhe apareceu outra vez a Mãe de Deus, tornando a mostrar-lhe como haveria de ser o hábito que trariam vestido as suas religiosas, pois, já o havia feito, a quando da visão no cofre em Tordesilhas, e, ainda, para lhe dizer que tinha chegado o tempo de pôr mãos à realização da Obra. Tinha soado a hora para a qual Beatriz da Silva orientara o curso de toda a sua vida, na qual concentrara todos os seus esforços e, para a qual, dirigira todas as suas aspirações. Urgia, agora, dedicar à realização da sua Obra todas as forças e o tempo que lhe restava viver na terra.
Com a sua admirável generosidade, passou a dar-se sem reservas, ao cumprimento da missão que Deus lhe confiava. Finalmente, o sonho que iluminara toda a sua vida, o desejo que o seu coração acalentava de espalhar pelo mundo a devoção à Imaculada Conceição, e honrar através da sua futura Ordem, este mistério tão grande e tão sublime, começava a realizar-se e a criar forma.
A fundação
"Terão como carisma próprio o da Imaculada Conceição".
Ajudada pela rainha Isabel "a Católica", que lhe deu os palácios chamados de Galiana, por terem outrora pertencido à princesa Galiana, filha de um rei mouro que os mandara construir propositadamente para esta sua filha, bem como a Igreja de Santa Fé, situada junto ao Palácio de Galiana. Beatriz deixa o Convento de São Domingos O Real, onde viveu 30 longos anos, para se instalar com mais doze donzelas de muita virtude e nobreza, no local que a rainha lhes oferecera. Entrou com grande alegria nessa casa tão desacomodada e, logo, deu ordens para que se fizessem as obras necessárias e conveniente para a transformar num Convento de religiosas contemplativas de clausura, começando por arranjar a Igreja. Tanto que, logo que se instalaram no seu Convento de Santa Fé, e, provido este, do essencial para a vida comunitária contemplativa, ordenou a santa fundadora o modo de viver que haviam de guardar ela e suas filhas e, composta a Regra, a enviar ao Sumo Pontífice Inocêncio VIII com petição da rainha Isabel "a Católica" para que Sua Santidade aprovasse esta Ordem com o título da Imaculada Conceição, bem como a Regra, o modo de rezar e de vestir (o hábito).
Foi, por meio de um «estranho» mensageiro, que a fundadora soube que, Roma tinha expedido a Bula de aprovação da Ordem. Contudo, mais tarde, chega a notícia de que o navio que transportava a Bula de aprovação, tinha naufragado. Beatriz comunicou o facto à rainha, e só teve uma ideia: pôr-se a rezar. Ao fim de três dias, aparece a Bula num cofre do Convento. Como aconteceu este «prodígio»? A verdade é que, hoje, a dita Bula se encontra no Convento de Toledo. Inocêncio VIII tinha dito sim ao pedido de Beatriz, com o apoio da rainha Católica. Estava a Bula dirigida ao bispo de Coria e Catânia, e ao Vigário de Toledo, para «executar a Bula» em 1491. A Bula papal cita expressamente a rainha Isabel e soror Beatriz, a quem autoriza a fundar um Convento, de clausura. Segundo palavras de Sua Santidade: Nos foi humildemente suplicado que se dignasse a Nossa Benignidade Apostólica erigir na referida casa um Mosteiro de Monjas, sob a invocação da Imaculada Conceição. Beatriz gozaria da dignidade de Abadessa, e a casa teria campanário, dormitório, refeitório, hortas e outras oficinas, na qual vivam as religiosas em comunidade sob a regular observância e perpétua clausura. E dá poder à Abadessa para que possa formar estatutos e ordenanças. Vestirão de branco, com manto cor (azul) celeste, e, «no manto e escapulário, tragam fixa a imagem da Virgem Maria, e se cinjam com uma corda de cânhamo, à maneira dos Frades Menores». Terão como carisma próprio o da Imaculada Conceição. A Bula «Inter Universa» está datada de 30 de Abril de 1489, quinto ano do Pontificado de Inocêncio VIII. É esta, certamente, a autorização solene, oficial e pontifícia para a Fundação.
E, finalmente, no antigo palácio, de uma princesa moura, tem o seu berço a Ordem da Imaculada Conceição, melhor dizendo, começam a escrever-se com letras de luz, silêncio e oração as glórias da Imaculada Conceição.
A passagem
"...no ocaso da vida tudo passa, só Deus fica e o que por Ele tivermos feito".
Seis anos passaram estas almas desejosas de uma entrega radical, à espera que lhes chegasse a aprovação de Roma. Quando esta, finalmente chega, a Obra começa a desenvolver-se em pleno. No entanto, um novo sacrifício lhes estava reservado.
Tinha já sido marcada pelo Bispo de Toledo, a festa das profissões, de Beatriz e das suas doze companheiras, quando a Santíssima Virgem de novo lhe aparece dizendo-lhe: - "Dentro de dez dias virei buscar-te porque não é vontade de Meu Filho que gozes aqui na terra o que tanto desejastes".
Duro golpe difícil de compreender, mas que Beatriz aceita com o coração em festa, como através de toda a sua vida aceitou sempre qualquer manifestação da Vontade do Pai Eterno. E nisto consistiu precisamente o segredo de toda a sua santidade, pois, só no cumprimento da vontade de Deus, reside o segredo da santificação de qualquer alma. Fora desta vontade não há santificação possível.
Efectivamente, no dia preciso em que estava marcada a festa do início da Ordem, Beatriz voou para o Céu, tendo, antes, recebido o hábito branco e azul, como a Senhora lhe tinha indicado, e feito nas mãos de um sacerdote Franciscano, a sua Profissão Religiosa. Morria assim, como uma verdadeira Concepcionista. A noite da sua vida passara. Tinha sido uma noite de lutas e sofrimentos em que venceu, é certo, mas que, para isso, teve de lutar denodadamente. Tudo agora findava, melhor, tudo agora começava, e morria feliz, pois, como diz o autor, "no ocaso da vida tudo passa, só Deus fica e o que por Ele tivermos feito". É que, na eternidade seremos julgados, não tanto pelo muito que fizemos ou possuímos, mas pelo muito que amámos. E Beatriz viveu uma vida intensa de amor e de entrega total a Deus.
A estrela
"...do seu rosto saiam raios de luz
e uma estrela luminosa fixou-se-lhe na testa
e ali permaneceu até que soltou o último suspiro".

No momento da sua morte há um pormenor que não pode ser esquecido. Desde que saíra da Corte de Tordesilhas, Beatriz cobria o seu belíssimo rosto com um véu branco a fim de ocultar, aos olhos de todos, a sua grande beleza que fora causa de tantos desgostos e dissabores. E, assim, viveu os cerca de trinta anos que durou a sua vida retirada no Convento de S. Domingos "O Real", e depois já no seu Convento definitivo.
No momento derradeiro, ao levantarem-lhe o véu para lhe ser administrado o sacramento da Unção dos Enfermos, todos viram, com assombro, que, do seu rosto, saiam raios de luz que iluminaram todo o aposento em que se encontravam, e uma estrela luminosa fixou-se-lhe na testa e ali permaneceu até que soltou o último suspiro. E é este o motivo pelo que a imagem da santa de Campo Maior se representa com uma estrela na fronte. Esta significa, certamente, a luz que ela irradiou então e que continua, ainda hoje, a irradiar ao longo destes cinco séculos que nos separam já da sua morte, ocorrida em Toledo no dia 9 de Agosto de 1492.
Luz que brota do testemunho de vida de Beatriz, que "...toda se abandonou à vida de santidade..." e das suas filhas, que encerradas nos seus Conventos seguem as pisadas da sua mãe e mestra, vivendo os rigores do evangelho.
Depois da morte
"...todas viviam unidas, «num só coração e numa só alma»".
Como nos conta Soror Catarina: "Logo que a serva de Deus expirou pensaram as religiosas de São Domingos levar para o seu Convento, não só as doze religiosas, porque não haviam professado e ficavam sem Madre, senão também o venerável corpo da Fundadora, porque, tendo vivido tantos anos com elas, julgavam que lhes pertencia; e, nesta ideia, começaram a fazer diligências, levando em seu auxílio alguns religiosos da sua Ordem para conseguirem levar a cabo a sua empresa, e, por conseguinte, para que a casa e Ordem da Imaculada Conceição ficasse desfeita. Não era porém essa a vontade do Senhor, que constantemente velava pelas suas servas; e não queria que desaparecessem de sobre a terra; e, por isso, mais uma vez as ilustrou com um novo milagre, como foi o aparecimento da Santa Fundadora a frei João de Tolosa."
Antes, mesmo, da chegada de frei João de Tolosa já os religiosos franciscanos de Toledo haviam impedido que o corpo de Beatriz da Silva fosse levado pelas religiosas de São Domingos "O Real" e o sepultaram na Igreja de Santa Fé, junto às suas filhas.
Contudo, as religiosas de São Domingos não desarmaram e, visto que, não tinham conseguido os restos mortais da fundadora, pelo menos, achavam-se no direito de reclamar para si as doze jovens que faziam parte da comunidade de Beatriz, argumentando que estas ainda não tinham tomado hábito nem feito votos.
Foi, neste contexto, que frei João de Tolosa veio encontrar as jovens discípulas de Beatriz da Silva. Imediatamente este ilustre franciscano fez desistir dos seus intentos as religiosas de São Domingos "O Real" e marcou, para dentro de oito dias, a tomada de hábito e a profissão religiosa das doze valorosas filhas de Beatriz. Tendo sido nomeada para Abadessa soror Filipa da Silva, sobrinha da fundadora.
Contudo, não ficaram por aqui as dificuldades por que teve de passar a jovem comunidade Concepcionista.
As religiosas Beneditinas do Mosteiro de São Pedro das Donas haviam decaído um pouco no fervor primitivo da sua Ordem. Por isso, o Reformador Geral de todas as Ordens no Reino de Castela, frei Francisco de Cisneros, ordenou que o Convento de Santa Fé e o Mosteiro de São Pedro das Donas se juntassem num só. Passando as religiosas de Santa Fé a viver no Mosteiro de São Pedro das Donas. Por outro lado, por breve do Papa Alexandre VI as monjas das Donas passavam a vestir o hábito da Ordem da Imaculada Conceição e adoptavam a forma de viver desta jovem Ordem. E ainda, deveria a Abadessa de São Pedro das Donas renunciar ao seu cargo em favor de Madre Filipa da Silva que passaria a ser a Abadessa da nova comunidade.
No entanto, as mudanças não foram fáceis, pois, graves divisões surgiram na comunidade, que, por três vezes, esteve à beira da extinção, devido às reforma implantadas por Madre Filipa da Silva e que, desagradaram muito às antigas religiosas de São Pedro por não aceitarem que uma Ordem mais nova, viesse impor a uma Ordem mais antiga correcções e tradições.
A tal ponto chegou a situação que, frei Francisco de Cisneros, à data, arcebispo de Toledo, esteve a ponto de ordenar se extinguisse de vez a Ordem da Imaculada Conceição. Não era esse, no entanto, o projecto de Deus que levou o ilustre prelado a fazer uma última tentativa para repor a unidade e a caridade no referido Convento. Para isso, dirigiu às religiosas do dito Convento, uma veemente exortação a que se apaziguassem. Conta-nos Soror Catarina que o arcebispo lhes falou com tão inspirado afecto que lhes abriu o coração e os pacificou de tal maneira que, as que haviam abandonado a comunidade, voltaram bastante emendadas, conformando-se todas numa só vontade e amor, transformando-se o Convento num autentico paraíso.
E dava gosto, depois, ver o Convento da Imaculada Conceição, onde todas viviam unidas, "num só coração e numa só alma".
Depois destas duras provas, a Ordem da Imaculada Conceição entra num período de grande florescimento, tornando-se numa das maiores Ordens Religiosas femininas de vida contemplativa, da Igreja.
A glorificação
"...a Igreja sente necessidade e alegria em nos dizer
que Beatriz da Silva, é Santa".

Ao longo da história, Deus suscita homens e mulheres que, compreendendo o único Absoluto, e que foram capazes de assumir atitudes de vida que, ainda hoje, têm lições de vida e de sabedoria. A vivência do Evangelho continua a gerar verdadeiros sábios em todas as épocas, que, com os seus exemplos e palavras, possuem uma força de persuasão que não vem dos livros, mas do Espírito Santo.
Inteiramente abandonados à acção de Deus, os santos deixam-se conduzir pelo Espírito Santo por caminhos desconhecidos, até ao dom total de si mesmos. E foi o que aconteceu com Beatriz da Silva e Menezes, por isso mesmo, a Igreja sente necessidade e alegria em nos dizer que, fundadora da Ordem da Imaculada Conceição, faz parte deste grupo de obras-primas da criatividade do Espírito Santo e que nunca se repetem, que são os Santos. E fá-lo oficialmente, quando o Papa Pio XI a 28 de Julho de 1926 a beatifica e a 3 de Outubro de 1976, o papa Paulo VI a canoniza.